Antiguidade

30 Nov
2009

Uma onda amanheceu em meu peito.
Essa dor que explode meus sentidos.
A doença que me envolve e fica em meu leito,
me fazendo lembrar de tantos sonhos partidos.

Só quero por hoje ficar quieto e tranquilo.
Só quero chorar minhas lágrimas de esquecimento,
por viver em meio a meu passado, meu azilo.
sem ser julgado ou posto a prova de um sentimento.

Tem dias que os olhos simplesmente marejam,
dias em que o coração aperta e o peito explode.
Manhãs não tão coloridas como as que almejam,
e mesmo assim meu sofrimento implode.

Nesse dia que por dias foi de felicidade,
hoje me lembra a tristeza, minha necessidade.
Ja fui seu maior presente, nesta data de saudade.
Suma dor pungente, me deixe em minha verdade.

Ritielle Souza

Texto: Verdades

23 Set
2009

talking-to-yourself

A vida é mesmo tão engraçada.
Um dia você descobre que suas vontades desapareceram. Que seus sonhos foram consumidos pelo grande vazio dentro de você.
Que a rotina e o comodismo é mais anestesiante que tentar correr atrás de seus desejos.
Começa então um longo período e atitudes que não fazem parte da sua natureza, que não fazem parte de seu eu. Continuamente se pergunta se tudo isso é mesmo algo que vem de você ou se está apenas desacordado, deixando sua consciência livre para sonhar, viajar e delirar em locais e coisas que jamais faria por você mesmo.
Mas sempre existe a hora de acordar. Sempre existe o momento em que iremos despertar. E quando este momento chegar será a hora definitiva, os últimos momentos de um sonho infame, onde sonhamos ser bons, onde sonhamos estar de bem com o mundo.
Estou pronto para ser eu mesmo novamente. Pronto para voar acordado mais uma vez. Fazer com que o mundo lembre do meu nome e me elogie pelo que sou ou me odeie pelo que faço. Assim sou mas dormindo estou.

Conto – A lâmina

17 Jun
2009

lamina

Ela tentava olhar ao seu redor, tentava reparar em tudo que existia naquele ambiente quente e úmido, mas não conseguia. A única coisa que entrava no seu campo de visão era a lâmina, fria, afiada, ausente de sentimentos.
Alí estava seu destino, nua no banheiro de sua imensa casa vazia, mais uma vez ela pensava na morte.

Aos poucos concentrava-se em morrer e podia lentamente voltar a ouvir a água do chuveiro ligado a cair no piso de cerâmica clara que custara tão caro e mesmo assim insistiu a seu marido que comprasse.
E a lâmina alí, estática, fitando seus olhos claros com o brilho harto que somente seu poderoso fio de corte poderia emanar. Uma navalha de barbearia ornamentada que ela e seu marido haviam comprado em uma de suas viagens a Itália, antes das meninas nascerem.

Que ironia do destino, algo que compraram juntos para se tornar uma lembrança bonita ser agora a ferramenta para lembrança tão triste. Mas talvez a vontade de criar esta ironia tenha sido o impulso para que ela escolhesse tal ferramenta.

Mais uma lágrima caiu e se misturou a água quente que escorria do chuveiro. Mais um pensamento que surgia da dor e se misturava a vontade de cessar tudo, de escurecer tudo.
Ela olhou para a pia onde as gêmeas haviam escovado seus dentinhos sozinhas pela primeira vez, olhando para ela com as bocas cheias de pasta de dente e sorrindo. A dor era tamanha que a lâmina cedeu mais um pouco e foi se aproximando mais da pele suave e bem tratada de seu pulso. A hora se aproximava.

A vida sozinha não era suportável, não podia continuar sem eles, sem carinho, sem risadas ou sem amor. E tanto que ela havia pedido, tanto que ela havia rezado para encontrar alguém naqueles anos passados quando morava com seus pais e tinha tantas espinhas. Seu primeiro terço foi lhe dado por sua mãe no seu aniversário de dezesseis anos. Era de madeira com uma medalha de Nossa Senhora no lugar onde haveria de estar a cruz com o Cristo. Foi com ele enrolado em seus pulsos que ela orava todas as noites antes de dormir para que amasse alguém de verdade, para que vivesse uma história digna de filmes. E agora, alí estava o terço. A única coisa que vestia. Seu terço de madeira no pulso esquerdo, ferramenta que usou para orar também enquanto aguardava o médico trazer notícias de sua família. Mas ao contrário de antes, desta vez o terço não lhe concedeu o que pedia em suas orações. Agora sua ferramenta de alívio era outra, a lâmina.

Seu corpo começava a dar sinais do tempo que estava em baixo da água do chuveiro, enrugando-se. A dor a trouxe um pouco de volta quando a lâmina entrou suavemente em seu pulso. Pode ainda pensar neste momento o por que não fora digna de ficar como eles, como seu marido e como as gêmeas. O carro era o mesmo, a única diferença era o banco no qual estava sentada. Um homem que havia bebido demais dormiu no volante de seu caminhão e avançara pelo lado do motorista do carro em que estavam passeando naquela noite. As gêmeas brincavam no banco traseiro. O marido brincava com ela enquanto dirigia despreocupado. Ela brincara com as gêmeas, poucos momentos antes do acidente. Um último instante de alegria e tudo lhe foi tirado. Estranhamente todas as ferramentas estavam lá naquela noite, o terço, a lâmina, as gêmeas, o marido.

Voltou a si quando a lâmina cortara o terço junto com sua pele, ela já havia avançado centímetros pulso abaixo e adentro. Não havia volta. Deixou o terço partido no chão e trocou a lâmina de mão enquanto ainda possuía forças. Estava feito. O outro pulso agora também chorava. A vermelhidão atingira a clareza do piso de cerâmica tão caro. Passava pela pia dos primeiros sorrisos escovados. A Lâmina batia ao chão enquanto a mulher já não mais existia, assim como sua tristeza, assim como seu marido e assim como suas filhas.

Ritielle Souza

Melinyë

30 Abr
2009

melinye

Que chama é esta que queima minha memória?
Quando divago só o que me resta é seu olhar.
Tenho no meu peito mais que amor, uma história,
que a tantos gostaria de contar.

Passa o tempo, sempre tão injusto ou incerto,
e me pergunto se ao menos é feliz.
Se ilude o mundo de peito aberto,
tanto quanto eu, minha linda atriz.

Ainda guardo rancor do destino,
por afastar-te. Um amor tão promissor.
Choro por ser este arauto do desatino,
sempre recordando de nosso calor.

Sua voz ainda faz da minha, euforia.
Amarre seu pulso ao meu mais uma vez
com suas velhas linhas, como quando jovem faria.
Deixe seu lábio tocar o meu em um talvez,
que quando jovem, jamais desperdiçaria.

Ritielle Souza

Ao seu lado

28 Abr
2009

seulado

Eu nem mesmo sei o por que,
meu desejo é ser seu guia,
não lhe deixar nas sombras,
ser para sempre sua companhia.

Seu escudo, sangrar em seu lugar.
Deixar a carne se estraçalhar,
se bem você estiver, sem chorar.

Que eu tenha força, para ser seu suporte,
em qualquer dificuldade, sua dor seja minha,
olhando seu bem estar, nem temerei a morte,
e que possa nunca lhe deixar sozinha.

Em suas noites sombrias, durante seus pesadelos
estarei ao seu lado, para em meu peito você se deitar,
e seu sono, mais leve, poderá se tranqüilizar,
e quem sabe, seus mais belos sonhos, possa mante-los.

Dedico-me, porque esta é minha sina,
dedico-me, porque este é meu prazer.
Morrer por ti, amor que não imagina,
viver em ti, luz que me faz crescer.

Destino eterno que só faz cantar,
para sempre em suas mãos, o gosto do tocar.
Diga-me o quanto precisa de mim,
e lhe direi o quanto preciso lhe amar.

Recital

17 Abr
2009

Estou inaugurando no blog uma idéia que me bateu nos últimos dias. Resolvi gravar algumas de minha poesias em audio e coloquei para vocês ouvirem na sessão recital aqui do blog. Espero que gostem.
Se alguém tiver a vontade de colocar a voz em uma de minhas poesias entre em contato comigo, será um prazer.

Boa leitura e agora, boa audição. ;)

Lentamente

4 Abr
2009
egoismo

Perdoe-me por me matar lentamente,
é que enquanto minha máscara sorria,
meus olhos choravam.

Perdoe-me por ir tão cedo,
finalmente enxerguei que jamais teria você,
e enquanto abandonava este mundo, fiz uma pequena prece.

Pedi que você jamais se lembrasse do que fui.
Pedi que você nunca precisasse ir visistar meu túmulo
com lágrimas entre os olhos.
Só pedi para que você nem soubesse quem sou, por que
assim ficaria mais fácil eu deixar tudo pelo que lutei.

Me convenci de que os bons deveriam ir cedo demais,
e tentei imaginar o quão bom eu era.
Talvez fosse o maior desafio somente olhar para trás,
com o medo de enxergar o que eu realmente era.

Espero que não sintam minha falta,
porque sempre chorei ao ver alguém sofrer.
Que não seja eu, o motivo de uma feição exausta.
Que não esja eu, que lhe faça pensar sobre o que é morrer.

Ritielle Souza

Mistérios da vida

28 Mar
2009

gotica248
Certamente nunca saberei o porque de viver repleto em mistérios. As vezes faço coisas que me criam uma atmosfera de mistério que não entendo para que fiz aquilo. Atitudes ou lembranças que deixo transparecer e que na verdade só podem fazer outros sofrerem ou não me compreenderem ainda mais.

Estava ouvindo legião Urbana como de costume e reparei em uma letra que não havia notado antes e que tem muito haver comigo.
Então segue:

Soul Parsifal (RENATO RUSSO)

Ninguém vai me dizer o que sentir
Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar

Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, a estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar

Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem eu sou

Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar

Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir

Tenho jasmim tenho hortelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção p’rá mim

sad

Acendo meu cigarro em mais uma noite solitária após o trabalho, quando chego e fico relaxando ao som de instrumentos que me agradem, sempre penso no que poderia melhorar minha vida. Foram com estes momentos de solidão que resolvi muitas coisas que me incomodavam. Mas desta vez não estou pensando no que mudar ou em como agir, desta vez apenas me conformei em como tudo aconteceu e no que acabei me transformando. Sempre que reflito sobre a vida um tema que não me deixa em paz é o amor. Sou isto que sou e sou assim graças ao amor, em situações boa ou em situações ruins, excesso dele ou ausência, não importa, ele me moldou porque sou todo sentimento, minha razão tantas vezes peca comigo.

Orgulho-me de já ter agradado muitas pessoas e também choro por tantas outras que fiz sofrer. Muitas destas em tentativas fúteis de tentar deixar de ser um vivenciador do passado, um caminhante solitário de estradas sombrias. Quanta bobagem e ilusão me proporcionei somente para esquecer quem eu era e algumas vezes quem eu amei. Já tive uma obsessão, tão forte quanto minha vontade de viver. Meu Zahir, como diriam os islâmicos. O Zahir é algo pelo que você se apaixona e aos poucos vem consumindo cada pensamento seu, tornando cada segundo somente dele. Foram bons momentos que me inspiraram a escrever poesias das quais me orgulho, por isso agradeço por já ter passado por este momento.

Hoje só vivo sem tentar antecipar os passos da vida ou me forçar a esquecer ou gostar de coisas das quais não esteja realmente esquecendo ou gostando.
Anos e anos eu procurei pela pessoa perfeita. Aquela que me tornaria feliz durante todos os dias da minha vida. Perfeição é só um ledo engano da humanidade. É claro que pode ter uma pessoa que será compatível comigo a ponto de me fazer feliz e ser feliz ao meu lado, mas perfeita é exigir demais. A vida é construída de altos e baixos, alegrias e tristezas e cada tristeza ao lado da pessoa que ama é um motivo para tornar os dias felizes mais gloriosos. Isso aprendi também a duras penas quando a minha pessoa perfeita me mostrou que também era capaz de odiar.
Acredito que nestes meus discursos também tenha influência de meu trauma com a palavra “perfeito”. Já ouvi de uma pessoa que eu era o homem perfeito para ela, mas entanto a fiz chorar. Que dor sinto quando lembro de suas lágrimas e que para essa perfeição faltava algo essencial, Amor. Sentimento ambíguo este não é mesmo? Linha tênue entre alegria e tristeza.
Mas o destino também é um fator curioso, como já disse, não me consumo pelo dia de amanhã, apenas o aguardo e quem sabe as estradas da vida não nos levem a um reencontro onde esta perfeição existirá de verdade lado a lado com o amor.

Hoje, sigo amando, longe ou perto, incondicional ou condicionalmente, não importa. Sou todo amor e apenas de amor vivo. Só evitaria meus sofrimentos se eu me recusasse a amar. E disto, não estou disposto a abrir mão.

Passado

8 Mar
2009

Posso ser a pessoa mais distante de você,
mas saiba que me lembro de ti a cada dia.
Posso ser o homem que jamais possuirá você,
mas saiba que em meus sonhos lhe tenho em demasia.

Que falta você me faz, nunca pude esconder.
Meu coração sente sua ausência a cada segundo.
As vezes me escondo de ti, só para sofrer,
e quando ouço sua voz, me toca tão fundo.

Não posso nunca negar o quanto amo você,
mesmo longe, ausente ou conflitante, amo você.
Se nunca pude viver junto a sua presença,
guardo minha lembrança, de amor, tão intensa.

Os anos passam como míseros escravos,
sem poder  me persuadir diante da ilusão.
Os segundos me maltratam, longe de ti, sempre bravos,
cavando fundo ao meu redor para que reste a solidão.

Ah, companheira valiosa e inerente.
valoriso-te tanto quanto me agracia.
lembro-me da linha que ligava nossos pulsos suavemente
e hoje cortam minha veia já não mais uma tecitura macia.

Ritielle Souza.

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