
Ela tentava olhar ao seu redor, tentava reparar em tudo que existia naquele ambiente quente e úmido, mas não conseguia. A única coisa que entrava no seu campo de visão era a lâmina, fria, afiada, ausente de sentimentos.
Alí estava seu destino, nua no banheiro de sua imensa casa vazia, mais uma vez ela pensava na morte.
Aos poucos concentrava-se em morrer e podia lentamente voltar a ouvir a água do chuveiro ligado a cair no piso de cerâmica clara que custara tão caro e mesmo assim insistiu a seu marido que comprasse.
E a lâmina alí, estática, fitando seus olhos claros com o brilho harto que somente seu poderoso fio de corte poderia emanar. Uma navalha de barbearia ornamentada que ela e seu marido haviam comprado em uma de suas viagens a Itália, antes das meninas nascerem.
Que ironia do destino, algo que compraram juntos para se tornar uma lembrança bonita ser agora a ferramenta para lembrança tão triste. Mas talvez a vontade de criar esta ironia tenha sido o impulso para que ela escolhesse tal ferramenta.
Mais uma lágrima caiu e se misturou a água quente que escorria do chuveiro. Mais um pensamento que surgia da dor e se misturava a vontade de cessar tudo, de escurecer tudo.
Ela olhou para a pia onde as gêmeas haviam escovado seus dentinhos sozinhas pela primeira vez, olhando para ela com as bocas cheias de pasta de dente e sorrindo. A dor era tamanha que a lâmina cedeu mais um pouco e foi se aproximando mais da pele suave e bem tratada de seu pulso. A hora se aproximava.
A vida sozinha não era suportável, não podia continuar sem eles, sem carinho, sem risadas ou sem amor. E tanto que ela havia pedido, tanto que ela havia rezado para encontrar alguém naqueles anos passados quando morava com seus pais e tinha tantas espinhas. Seu primeiro terço foi lhe dado por sua mãe no seu aniversário de dezesseis anos. Era de madeira com uma medalha de Nossa Senhora no lugar onde haveria de estar a cruz com o Cristo. Foi com ele enrolado em seus pulsos que ela orava todas as noites antes de dormir para que amasse alguém de verdade, para que vivesse uma história digna de filmes. E agora, alí estava o terço. A única coisa que vestia. Seu terço de madeira no pulso esquerdo, ferramenta que usou para orar também enquanto aguardava o médico trazer notícias de sua família. Mas ao contrário de antes, desta vez o terço não lhe concedeu o que pedia em suas orações. Agora sua ferramenta de alívio era outra, a lâmina.
Seu corpo começava a dar sinais do tempo que estava em baixo da água do chuveiro, enrugando-se. A dor a trouxe um pouco de volta quando a lâmina entrou suavemente em seu pulso. Pode ainda pensar neste momento o por que não fora digna de ficar como eles, como seu marido e como as gêmeas. O carro era o mesmo, a única diferença era o banco no qual estava sentada. Um homem que havia bebido demais dormiu no volante de seu caminhão e avançara pelo lado do motorista do carro em que estavam passeando naquela noite. As gêmeas brincavam no banco traseiro. O marido brincava com ela enquanto dirigia despreocupado. Ela brincara com as gêmeas, poucos momentos antes do acidente. Um último instante de alegria e tudo lhe foi tirado. Estranhamente todas as ferramentas estavam lá naquela noite, o terço, a lâmina, as gêmeas, o marido.
Voltou a si quando a lâmina cortara o terço junto com sua pele, ela já havia avançado centímetros pulso abaixo e adentro. Não havia volta. Deixou o terço partido no chão e trocou a lâmina de mão enquanto ainda possuía forças. Estava feito. O outro pulso agora também chorava. A vermelhidão atingira a clareza do piso de cerâmica tão caro. Passava pela pia dos primeiros sorrisos escovados. A Lâmina batia ao chão enquanto a mulher já não mais existia, assim como sua tristeza, assim como seu marido e assim como suas filhas.
Ritielle Souza
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